Português
Gibs
8

Era um dentista, respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes mas uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sombrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa do almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço. – O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos. – Isso o quê? – Esse nariz. – Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei. – Logo você, papai… Depois do almoço, ele foi recostar-se no sofá da sala, como fazia todos os dias. A mulher impacientou-se. – Tire esse negócio. – Por quê? – Brincadeira tem hora. – Mas isto não é brincadeira. Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou-se e dirigiu-se para a porta. A mulher o interpelou. – Aonde é que você vai? – Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório. – Mas com esse nariz? – Eu não compreendo você – disse ele, olhando-a com censura através dos aros sem lentes. – Se fosse uma gravata nova você não diria nada. Só porque é um nariz… – Pense nos vizinhos. Pense nos cliente. Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas (“Logo o senhor, doutor…”) fizeram perguntas, mas terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas. – Ele enlouqueceu? – Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos. – Nunca vi ele assim. Naquela noite ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar. – Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher. – Vou. Aliás, não vou mais tirar esse nariz. – Mas, por quê? – Por quê não? Dormiu logo. A mulher passou metade da noite olhando para o nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz postiço. – Papai… – Sim, minha filha. – Podemos conversar? – Claro que podemos. – É sobre esse nariz… – O meu nariz outra vez? Mas vocês só pensam nisso? – Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note? – O nariz é meu e vou continuar a usar. – Mas, por que, papai? Você não se dá conta de que se transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social. – Não tem porque não quer… – Como é que ela vai sair na rua com um homem de nariz postiço? – Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença. – Se não faz nenhuma diferença, então por que usar? – Se não faz diferença, porque não usar? – Mas, mas… – Minha filha… – Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai! A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra. – Você vai concordar – disse o psiquiatra, depois de concluir que não havia nada de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho… – Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele. – Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento de meu corpo continua o que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar, Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do Fluminense, tudo como era antes. – Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz? – É… – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão… De acordo com o texto, o que é mais importante para a sociedade: o que o individuo realmente é ou o que ele parece ser? justifique sua resposta no minimo em 30 linhas

+0
(1) Respostas
mariza1515

O que ele parece ser, esse texto me fez refletir e perceber que hoje em dia a sociedade encherga muito a aparência, o que os outros estão usando é o que eles são, hoje em dia vivemos de faixadas e aparências, esse dentista só queria ser ele mesmo, não mais um pai, mais um dentista e sim o pai, o dentista. Ele não queria ser igual aos outros, e conosco também é assim, se você não segue a moda e o estilo de vida dos famosos e da sociedade em geral já é julgado e criticado. Deveríamos todos sermos nós mesmos e não nos importar com que os outros irão falar.

Adicionar resposta